Elza Soares em sua novo show, A mulher do fim do mundo (Foto:Divulgação/Facebook Elza Soares)
Elza Soares aparece
assim em seu novo show, A mulher do fim do mundo: entronizada. Inspirada pela
canção "Pra fuder", de Kiko Dinucci, a diretora Ana Turra colocou
Elza no topo, de onde a saia da cantora se transforma em lavas que escorrem e
vão dar até à beira do palco, em direção ao público. A imagem criada também
passa a sensação do enraizamento de Elza. A estreia aconteceu no dia 3 de outubro, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.
O tom pesado do disco, pontuado por guitarras e distorções - que causou
certo estranhamento até em fãs da cantora -, ou samba noise, como definiu o crítico Mauro Ferreira,
ganha um refresco ao vivo, mesmo com o inevitável visual dark do show. Isso se
dá em grande parte pelo imenso carisma de Elza. No final da primeira canção,
"A mulher do fim do mundo", Elza ameaça, pede, implora por diversas
vezes que a deixem cantar "até o fim". A plateia fica atônita. A
opção cênica de trazer bateria e percussão para a linha de frente do palco
reforça a ideia de que há muito samba nas composições da turma paulista
recrutada por Guilherme Kastrup.
No final, depois de refletir sobre sua existência, de denunciar a violência
contra a mulher e a realidade das ruas, Elza evoca Elton Medeiros com
"Pressentimento". Apesar de sua aparente dor, a cantora ainda espera
seu tempo ansiado de se ter felicidade.
O disco está disponível para audição na íntegra no site do Natura Musical, patrocinador do projeto.
Maria Rita durante bis do show Coração a batucar.
Foto: Divulgação
Quando Maria Rita pisou no palco da Fundição Progresso, no
Rio de Janeiro, na madrugada de 27 de abril, para a estreia de seu novo show,
Coração a Batucar, a sensação era a de que o público que lotou uma das casas
mais tradicionais da Lapa já estava nas mãos da cantora. E foi assim durante
toda a apresentação.
A cantora seguiu rigorosamente o repertório que havia
testado em uma espécie de ensaio aberto que realizou no dia 12 de abril na
cidade de Lorena, no interior de São Paulo. Assim, abiu com “É corpo, é alma, é religião” (Arlindo
Cruz, Rogê e Arlindo Neto), um dos sambas mais empolgantes de seu novo disco,
lançado recentemente.
A segunda música foi “Cara Valente”, um dos grandes sucessos
de seu primeiro álbum, Maria Rita (2003). Embora seja coerente no roteiro – ela
é sucedida por “Maltratar não é direito”, sucesso do disco Samba Meu (2007), e
pela nova “Abre o peito e chora”, canções que falam de desencontros e descaminhos
do amor, e mesmo levando o público ao êxtase (uma menina que estava ao meu lado
deu inacreditáveis pulos de alegria ao ouvir a introdução da canção), “Cara
Valente” dá – para quem acompanha a carreira da cantora – a falsa sensação de
que o show Coração a batucar será uma reprise do Samba Meu, quando Maria Rita
estava começando a pisar mais fundo no universo do samba e ainda se apresentava
com uma mistura de canções daquele novo trabalho e os megas sucessos de seus dois
primeiros discos.
Coração a batucar é mais que isso. Superior ao Samba meu, sustenta-se sozinho,
sobretudo com o ótimo roteiro construído pela cantora e a opção de fazer um show “samba
pauleira”, sem pausas para conversas com o público e com apenas duas ou três canções
na linha dor de cotovelo.
Muito segura vocalmente, com total entrosamento com a
excelente banda (Ranieri Oliveira- teclados, Alberto Continentino - baixo, Davi
Moraes - guitarra, Marcelinho Moreira - percussão, André Siqueira - percussão e
Wallace Santos - bateria), Maria Rita faz com que as canções do disco cresçam
ainda mais no palco. Acontece com “Fogo no paiol”, “Bola para frente” e “No
meio do salão”. Nessa última, fica a vontade de vê-la seguida por “Sem compromisso”,
composição de Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro, que já foi gravadora
anteriormente pela cantora.
Maria Rita ainda abre espaço para duas canções de
Gonzaguinha. A contundente “Comportamento geral” e a entusiasta “E vamos à luta” – essa em um
grande arranjo -, ambas mostradas na elogiada apresentação que a cantora fez no
Rock in Rio 2013. A artista chegou a cogitar fazer de seu sexto álbum um
trabalho apenas com as composições de Gonzaga Jr, mas abandonou a ideia para
cair novamente no samba. A contar pela resposta do público nesse momento da
apresentação, a decisão foi acertada.
A canção que dá nome ao disco, na verdade, lançada no álbum
Elo (2011), serve como pano de fundo para uma passagem de clima do show. Depois
de cantar “Coração a batucar”, Maria Rita sai do palco e volta com outro
figurino, mais iluminado para concretizar a festa final do roteiro. Faz menções
aos filhos Antônio e Alice em “Cria”, emociona-se com “Mainha me ensinou”-
canção de Arlindo
Cruz, Xande de Pilares e Gilson Bernini que fala sobre ensinamentos e amor de
mãe - e faz uma sábia homenagem à mamãe Elis em “Ladeira da preguiça”,
acompanhada com empolgação pela plateia. Nesse momento, o cenário, que assim
como o figurino também é assinado por Fause Haten, representando grandes
lantejoulas, ganha novas cores.
Outra grata surpresa foi ouvir “No mistério do samba”, composição
de Joyce Moreno - a mais bonita do disco - na boca do público da Fundição. O
refrão “Nasci pela graça de Deus/Num país que tem samba” empolga a cantora
também.
Maria Rita ainda abre espaço para os sucessos “Coração em
desalinho” e “Tá perdoado”. No bis, “Do fundo do nosso quintal”, de Jorge
Aragão, e “O homem falou”, de Gonzaguinha, que, a meu ver, deveria ser a
segunda canção do show, no lugar de “Cara Valente”. Entonteceria ainda mais o
público, logo de cara.
Os presentes na Fundição pediram e Maria Rita voltou para o
segundo bis. Cantou novamente com “É
corpo, é alma, é religião”. Como não gosta de fazer diferença com seu público,
é bem capaz da segunda volta ao palco se tornar fixa durante a turnê.
Sem experimentalismo,
mas com conceito, Coração a batucar – disco e show - é o verdadeiro samba que Maria
Rita pode chamar de seu. Com sua cara, sua identidade. Mais um ponto para a cantora,
que, desde o seu aparecimento, no começo dos anos 2000, figura como uma das
melhores de sua geração.
Diante dessa peleja toda em torno da “lei das biografias”,
ou “Lei Roberto Carlos” (achei esse “alcunha” sensacional, parabéns ao
inventor), me veio à mente dois casos. Os herdeiros de Maysa, Dalva de Oliveira
e Herivelto Martins tiveram atitudes louváveis, bem antes de tudo isso virar
discussão. Talvez eles tivessem muito
mais a temer ou a esconder do que a turma do Procure Saber (Roberto e Erasmo
Carlos, Djavan, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Milton Nascimento
– como me dói escrever os quatros últimos nomes dentro dessa patacoada toda).
Sem entrar na discussão legal do tema – isso já está mais do
que exposto por pessoas muito mais qualificadas em textos na imprensa, internet
e TV (Geneton Moraes Neto escreveu um excelente para a Globo News), vou me
deter ao que Jayme Monjardim e Pery Ribeiro fizeram sobre a memória de seus
pais.
Em 2007, o jornalista cearense Lira Nero escreveu Maysa – Só
numa multidão de amores (Editora Globo), uma biografia que conta, em quase 400
páginas, a rica história da cantora paulista. Ao que parece, o único filho de
Maysa, o diretor Jayme Monjardim, não se opôs à biografia. Não sei ao certo se
Lira recebeu o convite para escrever a história de Maysa ou se ele tomou a
iniciativa, mas, como o próprio autor conta no final de seu excelente livro, a
própria família forneceu um baú repleto de recortes de reportagens que a própria
Maysa (parece que ela não tinha vergonha de sua vida, não é?) guardava. Foi com
esse material que Lira partiu para entrevistar cerca de 200 pessoas que
conheceram ou passaram pela vida de Maysa.
O livro deve ter inspirado a minissérie Maysa – quando fala
o coração, escrita por Manoel Carlos e dirigida pelo próprio filho da cantora. A
série, uma das grandes produções televisivas dos últimos anos, passou longe de
ser chapa-branca, mesmo tendo Jayme no projeto. Além de colocar Maysa como
grande dama da música brasileira – como de fato ela é – mostrou o lado beberrão,
briguento e de mãe relapsa da cantora. E não há qualquer vergonha nisso.
Simplesmente são fatos. Inegáveis.
Acredito que não deve ter sido fácil para Jayme Monjardim
contar essa história. Mexeu com suas lembranças. Decisão doída, com certeza.
Mas, principalmente, digna. Certamente por entender que fatos da vida pessoal
foram decisivos e interferiram na carreira de Maysa. Impossível desassociar uma
coisa da outra. A minissérie foi lançada em DVD, está nas prateleiras,
disponível para quem quer conhecer a vida e carreira da cantora.
O cantor Pery Ribeiro também passou por um processo
parecido. Em 2006, ao lado de Ana Duarte, escreveu Minha duas estrelas – uma vida
com meus pais Dalva de Oliveira e Herivelto Martins (Editora Globo). Logo nas
primeiras páginas do livro, nos agradecimentos, o primeiro parágrafo escrito
por Pery dá bem ideia da barra que foi trazer as histórias de Dalva e Herivelto
à tona.“Dedico este livro a todas as
crianças que tivera uma infância atribulada e traumática, e nem por isso
deixaram de amar a seus pais, a vida, e de respeitar as leis do Criador, tornando-se
maiores que suas dores”.
As “dores” de Pery são brigas, agressões e abandono que ele
e seu irmão Billy viveram e presenciaram na infância. Dalva e Herivelto se
amaram, se bateram, se agrediram. Mas Pery entendeu que as vidas de seus pais
estão fortemente ligadas à música brasileira, afinal produziu um sem número de
deliciosas "canções-respostas".
Herivelto compunha recados para a ex-amada. Dalva recorria
aos amigos compositores para atacar, em seguida, com sua resposta. A lista
inclui clássicos como Caminho certo, Errei, sim, Tudo acabado, Calúnia,
Palhaço, entre outras.
A vida de Dalva e Herivelto também virou minissérie, com
Adriana Esteves e Fábio Assunção como protagonistas. Os defensores dos caraminguás,
como Marília Pêra chamou (dando apoio) a grana reclamada pela turma do Procure
Saber, podem argumentar que Pery lucrou ao contar a história dos pais. Será
mesmo? Com o livro, duvido muito. Com a minissérie, talvez. Porém, pelo o que
consta, Pery não morreu nadando em dinheiro. Apesar de sua grande importância
no cenário musical brasileiro – é dele a primeira gravação do clássico Garota
de Ipanema – o patrimônio de Pery deve ser infinitamente menor do que a turma
que se sente pilhada pelos biógrafos conseguiu juntar.
Jayme e Pery estão em paz, não só com as biografias de seus
pais, mas também com a história da música popular brasileira.
Rainha da fossa. Esse é a principal definição dada a Nora
Ney (1922-2003). Sua voz grave ajudava esfumaçar ainda mais as letras dos
sambas-canções e o ambiente das boates da zona sul carioca. Nascida Iracema,
Nora começou a cantar na década de 50, no rádio. Imortalizou canções como
Menino Grande (Antonio Maria), De cigarro em cigarro (Luiz Bonfá), Preconceito
(Antonio Maria e Fernando Lobo) e o clássico-gilete no pulso Ninguém me ama,
que garantiu a ela o primeiro Disco de Ouro da indústria fonográfica
brasileira.
A canção Solidão sugerida neste post – Nora gravou também
outra Solidão, composta por Dolores Duran – foi gravada pela cantora em 1954. Trata-se
de uma das primeiras composições de Tom Jobim. O maestro a assina com Alcides
Fernandes, compositor de sambas.
Solidão é bastante conhecida na versão de Caetano Veloso e
de Gal Costa, que a gravou especialmente para a trilha da novela O dono do
mundo (1991).
Maria Rita decidiu encerrar oficialmente a turnê Redescobrir
– na qual cantava canções de sua mãe, Elis Regina – no último sábado, 20 de julho,
no Credicard Hall, em São Paulo.
O show ficou pouco mais de um ano em cartaz e a história
dele é bem conhecida. Mas, recapitulando, brevemente: começou com o nome Viva
Elis dentro de um projeto criado pelo produtor João Marcello Bôscoli, irmão de
Maria Rita, para marcar os 30 anos sem Elis. A ideia, que também abarcava uma
exposição e um livro biografia (ainda não lançado comercialmente) sobre Elis,
foi comprada pela empresa Nivea, que patrocinou cinco shows gratuitos nas
principais capitais brasileiras.
Com a boa recepção do projeto, Maria Rita decidiu, segundo
ela, por conta dos inúmeros pedidos de fãs que queriam ver o show,
transformá-lo em turnê. E mais: em CD e DVD registrados ao vivo em 11 de agosto
de 2012, em São Paulo, que inauguraram seu contrato com a gravadora Universal.
‘Mercenária’, bradaram alguns. ‘Está imitando a mãe’,
disseram outros. ‘Esse show é um karaokê, disseram- me alguns amigos e colegas
de profissão (todos profissionais qualificadíssimos – e viva a diferença de
opinião!), diante da minha empolgação com o show.
Alheia a tudo isso, Maria Rita seguiu. Deu a cara à tapa,
mesmo sabendo que ficaria à sombra da mãe no palco. Inevitável. E duvido que
ela mesma não tivesse absoluta certeza disso. “Estou aqui mais como filha do que
como cantora”, avisava a cada apresentação.
Assisti ao show sete ou oito vezes. Uma logo no início, em
Porto Alegre, ainda com o nome Viva Elis. Vi a gravação do DVD. Estive no
último show da turnê. Sempre fui, como disse no passado, esperando ver Maria
Rita cantando músicas da Elis. Nada além disso.
Redescobrir fez mais bem do que mal a Maria Rita. Trouxe amadurecimento
para a cantora. Traquejo. Pelo desafio, foi preciso se superar. Alguns
exemplos: se nas primeiras apresentações ela parecia não ter mergulhado no
turbilhão emocional da difícil Bolero de Satã (Guinga/Paulo César Pinheiro), ao
longo da turnê ela foi ficando à vontade nos versos e na melodia que, no
passado, foram cantados por Elis em dueto com o mestre Cauby Peixoto. Tatuagem (Chico Buarque/Ruy Guerra),
que me pareceu muito estranha na apresentação de Porto Alegre, foi outra que
entrou no eixo ao longo da turnê. Essa última, aliás, virou ‘momento suspiro’
do show.
Há que se destacar a excelente forma vocal de Maria Rita. Na
gravação do DVD, depois de um show de quase duas horas, voltou ao palco para refazer
algumas canções. Repetiu várias vezes. Talvez tenha cantado por quase três
horas. Nenhum sinal de cansaço.
A voz da Maria Rita também ganhou potência. A
maturidade está lhe trazendo tons mais graves.
Avessa a polêmicas e quase obsessiva com sua privacidade,
nem mesmo a troca de empresário no meio da turnê (saiu Cajaíba Jr e entrou
Marilene Gondim, profissional que também cuida da carreira de Ana Carolina) - e essas
trocas costumam ser traumáticas ou combustíveis para manchetes – foi percebida.
A turnê seguiu sem problemas.
Perfeccionista, a cantora se cerca, não só de uma competente
produção, como também de grandes músicos. Liderados por Tiago Costa (piano e
teclados), Davi Moraes (guitarra), Cuca Teixeira (bateria) e Sylvinho Mazzucca
(baixo acústico e elétrico) sempre mostraram competência.
Mas o que vem agora? Maria Rita disse, em algumas
entrevistas, sem revelar maiores detalhes, que já tem projetos, que está
selecionando repertório. Embora eu sinta que ela tenha muita vontade de fazer
algo parecido com o Samba Meu (seu terceiro disco), torço para que ela não caia
nessa tentação e faça algo mais próximo do seu primeiro trabalho (Maria Rita,
2003) ou do Elo (2011,disco que precedeu o Redescobrir).
Com um disco/show mais centrado em suas interpretações – sem
a grandiosidade do Samba meu (o show) e sem a sombra de Elis no palco – Maria Rita
poderá dar continuidade a sua evolução como cantora, manter o público que
conquistou com o Redescobrir – e ele era visivelmente diferente do Samba Meu –
e reconquistar os anti-Redescobrir.
A tarefa não será fácil.
Maria Rita canta Madalena no último show da turnê Redescobrir
P.S. Duas ou três sugestões para Maria Rita:
Inevitavelmente, mesmo com um novo trabalho, Maria Rita terá
que seguir cantando uma ou outra música da Elis em seus shows. Além de Doce de
pimenta, talvez a canção que a Maria Rita mais assumiu no Redescobrir - e ela
não deveria abandoná-la - sugiro que ela grave Giro (Antonio Adolfo/Tibério
Gaspar), lançada por Elis em 1969. Tem a cara dela, reparem.
Outra: gravar Sol de primavera, do grande (e esquecido)
compositor mineiro Beto Guedes. “Quando entrar setembro/e a boa nova andar nos
campos”. O motivo? Muito especial. Mas, esse, não conto.